O VELHO PASTOR

O aprendizado do passado, a vida do presente sem ansiedade e um futuro seguro em Cristo Jesus.

Filipenses 3.12-15; Fm 9,10 – Salmos 92.14,15: “Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e verdejantes, para proclamar que o Senhor é justo. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça”.

Introdução:

O erudito J.H.Jowett, falando aos alunos de teologia da Universidade de Yale na década de 60, fez algumas afirmações muito pertinentes sobre vocação: “Uma só é a minha paixão e por ela tenho vivido: A obra absorventemente árdua, gloriosa embora, de proclamar a graça e o amor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”… Ora, ninguém pode definir ou descrever a outrem a aparência e a forma da vocação divina… A singularidade das nossas circunstâncias e a espantosa singularidade de nossas almas fornecem o meio pelo qual ouvimos a voz do Senhor … Ora, o homem que entra no ministério pela porta da vocação divina, certamente aprenderá a ‘glória’ da sua vocação”. (Jowett, 1969, p.9)

Nesta reflexão, veremos verdades preciosas sobre o velho pastor que são bem diferentes do pastor velho. As implicações do seu ministério. O seu grande valor. A sua experiência de vida. Seus ensinos. Vejamos.

1. Encanta-me ver um velho pastor cheio de alegria e disposto a continuar servindo ao Senhor com humildade e consciência da vocação com a qual foi chamado e da missão recebida da parte do Senhor.

Ele tem convicção de sua chamada. Dr. Harvey, discorrendo sobre vocação divina, diz: a. No NT sempre se fala dos ministros como designados por Deus; b. O ministério constitui um dom especial de Cristo à Igreja, com base em Efésios 4.11,12. Harvey compartilha conosco, e isto é peculiar ao velho pastor, o seu chamado interior (seus elementos): a. Um desejo fixo e enérgico para fazer a obra de Deus; b. Uma convicção permanente do dever de pregar o evangelho; c. Uma convicção da sua debilidade pessoal e sua indignidade e uma confiança sincera no poder divino (Harvey, 1978, p.7,8).

O velho pastor, fundamentado na sua vocação dada por Deus, tem consciência de que precisa avançar, se acha incompleto e, como diz Paulo, “procurando alcançar aquilo para que também fui alcançado por Cristo Jesus”, isto é, a vida nova com todas as suas implicações (3.12). É diferente de um pastor velho, se arrastando e reclamando, murmurando e absolutamente absorto em si mesmo, inerte e acomodado às limitações da idade. Muitas vezes ressentido e amargurado, lembrando-se de experiências traumáticas do ministério pastoral. Há muitos obreiros idosos alijados e sem utilidade nas igrejas. Somos o país que não valoriza o idoso. Somos a Igreja que não dá o devido valor ao líder idoso. Uma sociedade que não honra o idoso está fadada à mediocridade. Infelizmente, a nossa cultura não dá o devido valor ao avançado em dias. O velho pastor não tem interesse em pijama, mas em roupas de trabalho e uniforme de um soldado submisso Àquele que o chamou para a guerra. Ele é um homem comum para um trabalho extraordinário. Dr. Tozer não teve formação em Seminário, mas foi um dos maiores teólogos bíblicos do século XX. Ele possuía um macacão no seu escritório. Ele o vestia e se jogava no chão pedindo misericórdia ao Senhor para o exercício do seu ministério.

2. O velho homem de Deus tem a sensibilidade à flor da pele. Ele não é um saudosista, mas realista. Não é pessimista, mas otimista. Ele otimiza oportunidades e recursos à serviço dAquele que o chamou.

Precisa prosseguir, Ele não pode ficar olhando para trás, mas avança com determinação porque tem norte, alvo, tem projeto, tem garra, o sangue do novo testamento, da nova aliança corre em suas veias e artérias, percorre suas entranhas, domina o seu corpo, sua alma e seu espírito (v.13). Ele pode dizer como Paulo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer, lucro” (Fil 1.21). O velho obreiro possui discernimento e ama ao Senhor de verdade. Por isso, ele prossegue para o alvo (skopos), um sinal distante para o qual ele olha firmemente. É por causa de sua salvação e de seu chamado, para receber o prêmio, a recompensa (v.14).

O seu prazer está em Deus. Ele é a sua alegria todos os dias. Aliás, Jesus é a sua alegria todas as manhãs, a renovação de suas forças todas as tardes e o seu descanso todas as noites. Ao olhar para trás ele não tem remorso e nem lembranças amargas de situações difíceis e, muitas vezes, constrangedoras. É um homem cheio de gratidão que está impregnado da satisfação em Deus. Ele ama a Bíblia. Ama sua família. Ama a Igreja pela qual Cristo derramou o Seu precioso sangue. O seu deleite está na Lei do Senhor e nela medita dia e noite (Salmo 1.2). Os hinos do CC são um lenitivo, encorajamento e cheios de desafios na jornada. A sua mente e o seu coração – razão e sentimento – estão debaixo da vontade do Pai.

Ele tem harmonia no seu interior. Como diz Paulo no verso 15: “Por isso, todos os que somos aperfeiçoados (maduros, adultos na fé, desenvolvidos) tenhamos esse mesmo modo de pensar, e, se em alguma coisa pensais de outro modo, Deus também vos revelará isso. Mas prossigamos (corramos prontamente, com determinação para um alvo especifico) na medida da perfeição que atingimos (v.16). O velho pastor está aprendendo a obedecer como Charles Studd com quase 100 anos. O velho pastor aprende com Jesus a ser manso e humilde de coração (Mt 11.29). Então, a mansidão é uma das suas características marcantes e reconhecidas. Um homem tratado e tratável. Servir é uma das suas marcas distintivas. Ele tem a piedade de Enoque, a fé de Abraão, a persistência de Jacó, a mansidão de Moisés, a coragem de Davi, a intrepidez de Elias, a sensibilidade de Jeremias, a visão de Daniel, a simplicidade de Zacarias, a humildade de João Batista, o entusiasmo de Pedro, o espírito evangelístico de Paulo, o amor de João. O seu exemplo perfeito, portanto, é Jesus, para quem ele olha diariamente (Hb 12.1,2).

3. O velho obreiro é chamado de bem-aventurado, mais que feliz ou felicíssimo (Mt 5.1-12). O Sermão do Monte (Mt 5,6,7) é o seu código de ética.

Conviver com ele é contagiante, pois vive sorrindo, contente em toda e qualquer situação. Estar perto dele é não se entristecer. Suas palavras e ações são coerentes. Ele conhece e reconhece as fronteiras éticas. Ele é um homem sábio para aconselhar e acompanhar os obreiros mais jovens. MENTOR DE QUALIDADE. Sua família tem prazer em apresentá-lo como aquele que sempre foi responsável, amoroso, cuidadoso e atencioso.

Conhecido como um homem disciplinado e disciplinador. Seus filhos e netos se lembram de suas histórias, especialmente a história dos grandes feitos de Deus. Recordam-se de quando ele lia e expunha a Palavra de Deus para eles. Eles se assentavam para ouvi-lo com atenção e prazer. Ainda aprendem com ele novas lições de vida. Buscam conselhos sábios para suas vidas. As pessoas que foram pastoreadas por ele têm lembranças encantadoras. Deleitam-se quando se lembram do seu cuidado amoroso – visitas, pregações, ACONSELHAMENTOS, conversas informais… .

4. O velho pastor tem um compromisso de adoração ao Senhor. Piper ensina que “A essência interior da verdadeira adoração é satisfazer-se em Cristo, apreciá-lo, estimá-lo e considerá-lo o tesouro.

É possível ver como essa definição da essência da adoração não está associada aos cultos dominicais. Ela permeia a vida toda e flui do coração. É muito relevante para a compreensão dos elementos que deveriam compor os cultos de adoração. Ou seja, eles deveriam consistir na ‘busca fervorosa por Deus”.

A adoração do velho pastor é diária, abundante e prazerosa. A comunhão com o Senhor é prioridade em sua vida. Adorar é o verbo mais importante no vocabulário do velho obreiro do Senhor.

5. Ser um velho pastor é um privilégio, é honrar a Deus todos os dias. É viver o ministério até o fim.

Em todo o tempo ele trabalha incansavelmente. Não é um mero ativista, mas um homem em atividade prazerosa. Ele ama a Igreja de Cristo. Submete-se ao Cristo da Igreja. Em todo o tempo ora, evangeliza, testemunha a sua fé com profunda alegria do Espírito Santo. Um homem dinâmico, criativo e proativo.

Para o velho pastor a pregação deve ser bíblica e contextualizada. Aproveitando Piper aqui, “o alvo da pregação é a Glória de Deus; a base da pregação é a cruz de Cristo e o dom da pregação é o poder do Espírito Santo”. Que coisa muito boa é ser um velho pastor comprometido com a exposição bíblica e que está cheio do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e do poder do Espírito Santo, vivendo pela fé (Hc 2.4; Rm 1.17). Um homem que é fiel ao Senhor na entrega da Sua Palavra. Um exemplo de mordomia ampla. Um homem que tem prazer em glorificar a Deus nas circunstâncias mais difíceis. Ele crê nas promessas de Deus. Aguarda a volta de Cristo e diz com alegria e esperança. “Maranata, Senhor Jesus!”

Dentre os vinte conselhos de Thomas Watson (1620-1686, Inglaterra) em sua despedida da Igreja, achei muito relevante este que, certamente, é o conselho do velho obreiro da Igreja de Cristo:

Mantém vigilância quanto à tua vida espiritual. O coração é um instrumento sutil, que gosta de sorver a vaidade; e, se não usarmos de cautela, atrai-nos, como uma isca, para o pecado. O crente precisa estar constantemente alerta.
Nosso coração se assemelha a uma “pessoa suspeita”. Fica de olho nele, observa o teu coração continuamente, pois é um traidor em teu próprio peito. Todos os dias deves montar guarda e vigiar. Se dormires, aí está a oportunidade para as tentações diabólicas.

Conclusão:

a. O que o velho pastor deve fazer no futuro? Trabalhar muito ou vestir o pijama? Mover-se ou ficar parado? Louvar ou reclamar? Testemunhar de Cristo corajosamente ou esconder-se atrás das limitações físicas? Criar ou simplesmente copiar? Trabalhar ou sentar-se no banco da Igreja como mero expectador?

b. A promessa é que na velhice “ainda darão frutos”, ou seja, produzirão, farão florescer; cheios de seiva > vigor, robustez; verdor > exuberante, viçoso. PARA ANUNCIAR > contar, declarar, tornar conhecido, expor, informar, publicar, ser relatado que o Senhor (Jeová) é reto > honesto, direito, plano, justo. Ele é a minha rocha > pedra com superfície plana; um bloco de pedra muito forte.

c. O velho pastor tem seus olhos prejudicados com o tempo, mas possui a visão de Cristo; suas forças já não são mais as mesmas, mas o Senhor as renova; seu sono não é mais o mesmo, mas ele descansa naquele que tudo pode; seu humor altera, sente melancolia, mas o Senhor é a sua alegria. Os seus olhos estão postos no Senhor. A palavra de Isaias 40.29-31 é real na vida do velho pastor. Este é aquele que trabalha com alegria e singeleza de coração e sempre para a glória de Deus!

JOWETT, John Henry – O PREGADOR – Sua Vida e Obra – CEP – São Paulo –, CEP, 1969.

HARVEY, H. EL PASTOR – CBP – El Paso – Texas, 1978.

Autor: Oswaldo Luiz Gomes Jacob, pastor.

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