O PASTOR E O PACOTE BÁSICO

Como pastores, temos a tendência de servirmos ao Senhor, servindo à igreja, utilizando o ‘pacote básico’, ou seja, pregação, apresentação de criança, batismos, casamentos, aniversários, bodas, sepultamento, ensino, visitação… Há o perigo de nos acomodarmos ao trivial, corriqueiro no ministério. Entrarmos numa rotina meramente profissional. Sabemos que o exercício do ministério é mais do que um ‘pacote básico’. Precisamos considerar que a chamada para o exercício do ministério pastoral não é mérito humano, mas graça de Deus. Não é para a nossa glória, mas para a Glória do Senhor (1 Co 10.31.) Paulo testemunha aos irmãos em Corinto que a graça de Deus o fez fecundo em seu ministério (1 Co 15.10). Há alguns princípios que precisamos destacar que revelam muito bem a riqueza do ministério pastoral que está além do básico, do trivial.

Primeiro, precisamos ter a consciência e a convicção do chamado de Deus. Abraão teve muita convicção do chamado Deus para formar um povo sacerdotal (Gn 12.1-3). O velho patriarca não sabia para onde ia, mas tinha consciência com quem ia. Aquele que nos chama está conosco todos os dias até à consumação dos séculos (Mt 28.20). Quando olhamos para os verdadeiros profetas e apóstolos, notamos claramente um compromisso com a Missio Dei. O Senhor chama com base no Seu caráter santo e misericordioso e o homem deve obedecer incondicionalmente. Patriarcas, profetas e apóstolos foram pessoas designadas pelo Senhor para a implantação do Seu Reino. O pastor precisa ter a consciência e plena convicção da sua vocação. Se ele não tiver essa convicção pode ser um profissional vazio, destituído de poder do Espírito Santo para o pleno exercício do ministério.

Segundo, como vamos exercer uma obra extraordinária como trabalhadores comuns? Esta é uma pergunta pertinente, pois não é possível trabalhar para o Senhor se não recebermos dEle o poder, a orientação, a provisão e a proteção. A obra de Deus precisa ser feita à maneira de Deus, no Seu caráter, na dependência dEle. Paulo declarou: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fil 4.13). Aos irmãos em Corinto, Paulo deixou claro: “não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica” (1 Co 3.5,6). Esta deve ser sempre a nossa convicção no exercício do múnus profético que recebemos da parte do Senhor. Mas, a quem devemos agradar?

Terceiro, a quem desejamos agradar? Sempre ao Senhor. O ministro não exerce o seu ministério para agradar a homens, mas a Deus. O autêntico servidor do evangelho não tem a corda na barriga (exerce o ministério por dinheiro), mas no pescoço (está disposto a morrer pela defesa do evangelho de Cristo). O nosso coração deve se alegrar no Senhor. É precioso vivermos para o Seu inteiro agrado, para o louvor da Sua glória (Ef 1.12). A nossa vocação deve ser sempre um culto ao Senhor. O nosso coração pertence prioritariamente a Deus, nosso Pai, na mediação de Jesus Cristo e pelo poder do Espírito Santo. Se vivermos exclusivamente para Ele, serviremos às pessoas com profunda alegria e singeleza de coração. Pedro e João disseram aos religiosos judeus que os perseguiam: “Julgai vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus; porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido” (At 4.19,20). Se vivermos para agradar homens, desagradaremos a Deus.

Quarto, a importância de um ministério pessoal de oração. O homem de Deus, um ministro do evangelho do Reino, não pode servir aos homens antes de exercer a diaconia diante de Deus em oração agonizante. O vocacionado por Deus não sobe ao púlpito, mas desce ao púlpito. Ele desce da comunhão íntima com o Senhor para falar ao povo. O pastor deve se ocupar da oração e do ensino da Palavra. Se ele não entrar no Santo dos santos em Cristo Jesus, não tem autoridade espiritual para falar aos homens. Como vamos falar de Deus aos homens se não estamos em comunhão íntima com Deus pela oração? Orar é falar com Javé e ouvir o que Ele tem a dizer. O pastor tem um ministério de oração pessoal intercedendo por sua família, sua igreja, pelos perdidos e pelas autoridades constituídas (1 Tm 2.1-4). Somos ordenados a orar (1 Ts 5.17). Jesus nos ensinou a orar em todo o tempo, sem cessar (Lc 18.1). Mas a vida pessoal de oração nos leva a cumprir a missão no caráter de Cristo Jesus.

Quinto, a certeza de que a missão deve ser cumprida sempre no caráter de Cristo. A nossa missão é Cristocêntrica, ou seja, Cristo é o centro do nosso trabalho pastoral. Ele mesmo é a nossa missão. Pregamos o Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos, mas para os chamados, sabedoria e poder de Deus (1 Co 1.22-24). Exercermos o ministério no caráter de Cristo é fazê-lo em amor, verdade, humildade, mansidão e justiça. Todos os nossos atos ministeriais devem se feitos no amor de Cristo Jesus. Além do amor, devemos praticar o nosso trabalho cristão em verdade. O que somos e o que fazemos devem ser pautados na verdade que é Cristo. Aos pastores de Éfeso, o velho apóstolo considerou Cristo e a Sua obra muito mais importantes do que a sua própria vida (At 20.24). Ele declarou aos irmãos em Filipos, “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fil 1.21). O caráter de Cristo é que deve definir o nosso ministério. É neste caráter que somos dependentes dEle.

Sexto, como pastores, somos totalmente dependentes de Deus. Jesus Cristo é o nosso exemplo de dependência do Pai. Todo o Seu ministério foi realizado debaixo da autoridade de Deus Pai. Ele veio do Pai e voltou para o Pai. À semelhança de Cristo, somos dependentes de Deus para a execução dos nossos ministérios. Deus, nosso Senhor, suprirá todas as nossas necessidades em Cristo Jesus (Fil 4.19,20). Recebemos de Deus a capacidade para a realização dos nossos ministérios. Não há ministério difícil quando dependemos de Javé. Aprendemos que o justo por sua fé viverá (Hc 2.4; Rm 1.17). Todos os que são dependentes de Deus são mais que vencedores (Rm 8.31-39). Josué recebeu de Deus a garantia da Sua provisão e proteção sendo um líder bem-sucedido (Js 1.8,9). Josué era comprometido com a Palavra de Deus. Davi venceu Golias, o gigante filisteu, ‘em nome do Senhor dos Exércitos’ (1 Sm 17.45). Quando meditamos, refletimos debruçados sobre as Escrituras, revelamos a nossa dependência do Senhor. As Escrituras são o vade-mecum do homem de Deus. Ele medita nela dia e noite. Os sermões pregados não são preparados de forma profissional, mas devocionalmente.

Sétimo, como líderes-servos, é necessário que vivamos para a Glória de Deus. Este é o ensino paulino em 1 Coríntios 10.31 e Efésios 1.12. Vivermos para a glória de Deus é reconhecer que não temos glória. Em nossos ministérios, Deus é que deve ser engrandecido, homenageado e honrado. Nós somos meros coadjuvantes. A honra, a glória e o louvor são exclusivamente do Senhor. Ainda que façamos tudo, somos servos inúteis. Nossa vida pessoal, nossas famílias, nossas igrejas e todo o trabalho que realizamos são para a dignidade do Autor da nossa salvação. Somos chamados para vivermos debaixo de Sua glória. Nós, ministros do evangelho, somos homens comuns com o objetivo de trabalharmos para um Deus extraordinário, que nos deixou uma obra igualmente extraordinária para realizarmos em nossa fraqueza (2 Co 3.5).

Esses sete princípios desenvolvidos acima, devem nortear os nossos ministérios. Ele é do Senhor e para o Senhor. Toda a nossa vida ministerial deve ser para o louvor do Senhor. Servi-lo é um privilégio e uma responsabilidade tremenda. Deus se agrada quando Seus pastores são homens segundo o Seu coração, que apascentam o Seu povo com ciência e inteligência (Jr 3.15). Somos ministros (remadores de baixa categoria, 1 Co 4.1 ) de Deus chamados para servi-lO, servindo ao povo na oração, no ensino, no cuidado, na exortação, no consolo, no encorajamento e sempre fiéis no cumprimento da missão (1 Co 4.2) . Somos trabalhadores da seara, cujo Senhor é que recebe todas as honrarias e benefícios da colheita. Ele nos supre em todas as nossas necessidades. Ser pastor não é servir com o ‘pacote básico’, mas ir além na medida do compromisso inadiável e inalienável com o Senhor (com o Seu caráter) que nos chamou com base em Sua graça. Toda honra, todo reconhecimento, toda glória e o todo louvor do ministério, pertencem Àquele que é razão e o fundamento de todas as coisas. Como Paulo, possamos dizer com convicção: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24).

Oswaldo Luiz Gomes Jacob, pastor

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