PESSOALIDADE VERSUS TITULARIDADE

Pessoalidade é a qualidade do que é pessoal, sinônimo de personalidade. É o que determina a individualidade de uma pessoa moral (Aurélio). Tem a ver com o ser. Quem a pessoa é por natureza. Deus nos fez ser Nele e para Ele. Somos Dele por direito de criação e por direito de redenção. Cristo é o imprimatur de Deus, o Pai, em nossas vidas. A nossa pessoalidade tem tudo a ver com Aquele que nos criou e nos salvou para Si mesmo, para o louvor da Sua glória. Titularidade, por sua vez, tem a ver com título, identificação externa, posição, fama, diploma e bens. O homem está mais preocupado com títulos do que com seu ser, sua interioridade e sua capacidade de se auto-examinar, de olhar para dentro e de se deixar perscrutar pelo Senhor. A sociedade, de um modo geral, valoriza mais os títulos, a cultura, o patrimônio das pessoas. Vivemos num mundo estético e implacavelmente voltado para o aqui e agora, para o ter. O ser humano tem necessidade (e isto é fruto da natureza de Adão) de se auto-afirmar numa sociedade que cria esta demanda. Apresenta-se atrelado a algo meramente material. Algo que o ‘projete’ na sociedade.

Ter título é um patrimônio muito valorizado na vida dos que vivem de aparência. Contamos vantagens dos cônjuges e filhos. O nosso prazer é dizer que o nosso cônjuge e filhos fazem isto ou aquilo. Na verdade, vivemos muito fortemente ao sabor do que os outros pensam de nós. Sentimo-nos escravos das opiniões alheias e das avaliações da sociedade. Somos pressionados a dar um histórico do que possuímos na perspectiva material. Apreciamos mais as vantagens da vida profissional e cultural e nos esquecemos do valor do ser. A pessoa é mais importante do que qualquer profissão ou patrimônio. Temos criado castas nos nossos relacionamentos dentro e fora da Igreja. Os que estão lá embaixo (sem dinheiro, cultura, bens) não têm a nossa valorização. Daí as Igrejas chamadas de ‘segmentadas’. Então, os títulos podem mascarar a realidade do ser. Muitos se escondem atrás de propriedades e diplomas. A nossa ênfase não é o título, os bens da pessoa, mas ela mesma, como ela é. Os títulos são, muitas vezes, moeda de troca neste mundo estético, das coisas que podem ver, que têm a capacidade de inflar as pessoas.

Pessoalidade, por sua vez, tem a ver com o ser que vive intensamente a sua realidade. Ela está ligada a relacionamentos sadios. O meu interesse não é o que a pessoa faz por fazer, mas o que ela é. Tenho interesse em relacionamentos respeitosos. A valorização do próximo é uma característica cristã bem genuína. A sociedade secular trabalha para os interesses corporativos. O padrão aferidor é pragmático, isto é, está nos resultados que a pessoa pode dar para a organização. O título, a graduação, a performance são elementos essenciais no processo de inclusão social. As pessoas são valorizadas pelo que elas podem dar de retorno. Há um padrão de “qualidade” exigido. Ele é definido pela sociedade, que tem um viés espartano – só os “saudáveis” podem ter direito de viver bem, servir, trabalhar, ter o seu lugar no pódio de uma vida “bem sucedida”.

Jesus sempre valorizou a pessoalidade. Prostitutas, cegos, aleijados, pobres e demais rejeitados pela sociedade de então, eram aceitos pelo Senhor. O Seu convite brotava do Seu coração amoroso que não preconceituava quem quer que seja. Os cansados e oprimidos encontram o coração do Mestre aberto, receptivo e pronto para abençoar. No ambiente do Mestre entram todos os que desejam mudar, ter suas vidas restauradas e que se dispõem a servir, a testemunhar a sua mudança. Jesus sempre valorizou a pessoa por inteiro. Era dele mesmo considerar que o homem vale pelo que é e não pelo que poder dar de retorno. A pessoalidade deve estar ligada à Pessoa de Cristo. O sentido da vida, todas as riquezas espirituais e emocionais, e nossa realização, estão nele. Paulo disse que todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão no Senhor. Tudo o que precisamos está na Pessoa de Cristo. Na verdade, a pessoalidade plena só tem sentido em Sua vida. É muito precioso sermos pessoas transformadas por Sua obra na cruz e na ressurreição. Reconhecermos a nossa incapacidade de servi-lO se Ele não for conosco. Que vençamos os nossos preconceitos. Valorizemos a pessoa em sua simplicidade, sua expressão de humildade e sua capacidade de reconhecer suas profundas limitações. Tenhamos um coração amoroso e perdoador, que aceita em graça. Preguemos o evangelho que nos ensina a amar e a respeitar o próximo e, acima de tudo, glorificar Aquele que nos fez à Sua imagem e semelhança.

Oswaldo Luiz Gomes Jacob, pastor.

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