OS CARGOS PODEM TRAZER VAIDADE, MAS AS CARGAS PRODUZEM GLÓRIA

Nas minhas participações nos encontros convencionais tenho observado como a luta por cargos (ordens, incumbência, responsabilidades, encargos, obrigações) é uma realidade muito forte. Indicações, pressões e constrangimentos são reais nas reuniões da denominação. Percebemos que a politicagem é uma deformação da política denominacional. As opiniões e racionalizações são mais importantes do que a orientação ou direção de Deus. Vale mais a indicação do homem do que a vontade de Deus em Cristo Jesus. A questão antropocêntrica é muito mais considerada do que a realidade Cristocêntrica. O governo do mérito pessoal em detrimento do mérito de Cristo, tem dominado as reuniões dos convencionais. A busca pelos cargos, sabemos, redunda, muitas vezes, em vaidade. Ela prejudica tremendamente o trabalho daquele ou daquela que os possuem. Os cargos têm toda uma conotação de pódio. Na nossa leitura, os cargos devem ser de acordo com o mérito profissional aprovado pelo Senhor da obra. Temos a tendência natural para cargos. E como a temos! Podemos até lutar por eles. Cargos geralmente trazem status, posição, destaque. Como gostamos dessas coisas! O grande problema do homem é conquistar o seu espaço mesmo que isto implique em passar por cima dos outros, fazendo dos ombros do próximo um degrau para a sua ascensão doentia. Apreciamos ser admirados e ovacionados. O nosso ego gosta do topo, de estar por cima da carne seca.

O homem, de um modo geral, está perseguindo a fama, a eminência e a tietagem. É impressionante como a natureza humana, especialmente a não regenerada, ama ser notada, ovacionada e elogiada. Persegue os títulos e o reconhecimento dos homens. Há uma disputa constante por glória pessoal. O ser humano é uma espécie voltada para o centro de si mesmo. Infla com muita facilidade. O homem se assenta no seu próprio trono. Aprecia ser senhor de si. Arroga-se nas suas ‘qualidades’ ou ‘predicados’. Concentra-se no seu positivismo. Relata para si mesmo palavras de ordem que exaltam o seu ego a partir do seu curriculum. A vida para essa gente é uma disputa constante e extasiante. Para os que buscam cargos, jogar tênis (disputar) é mais importante do que jogar frescobol (brincar, relaxar, se divertir). Para os amantes dos cargos, o jogo faz parte da vida. Ser um vencedor, mesmo prejudicando o próximo, é um estilo de vida. Para os caçadores de cargos, a vida é uma arena onde vale tudo. Existe aqui um maquiavelismo muito forte. Nas igrejas, associações, ordens, convenções os cargos são disputados. Há indicações políticas, conchavos. Soube que um irmão nosso, executivo de uma das nossas juntas, estava muito doente e havia elementos da organização buscando apoio para substituí-lo e até já havia candidatos. Não queriam levar a sua carga, mas o seu cargo. Isto me causa asco e é, no mínimo, lamentável e indigno quando se trata de líderes que conhecem o Senhor.

Por outro lado, as cargas não são apreciadas pelos que gostam de cargos. A realidade das cargas é de solidariedade e companheirismo. As cargas (tristezas, calamidades, lutas internas, sofrimento) não são populares. Não atraem. Não trazem sucesso. Não alimentam o ego, mas o condenam à morte. Porque as cargas desencadeiam um processo de definhamento do ego. Processo de inanição. O Senhor deseja que levemos as cargas uns dos outros. Que ajudemos uns aos outros com profundo amor. Quando levamos as cargas de um irmão estamos cumprindo a lei de Cristo, ou seja, o novo mandamento. “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (João 13.34). É a lei do dono da Igreja, que é organismo e também organização. Cristo é o nosso modelo de carregador amoroso. Ele levou sobre si as nossas culpas, os nossos pecados como uma grande carga. Em levá-la, há humildade. Temos uma belíssima cumplicidade quando levamos as cargas uns dos outros (Gl 6.2). As cargas nos humilham, corrigem, amadurecem, ampliam a visão e glorifica o Senhor. Se nos cargos geralmente a glória é do homem, nas cargas, a glória é de Deus. Ele mesmo nos mune de força para levá-las. Carregar as cargas, em Cristo Jesus, é privilégio do cristão autêntico, comprometido com o Reino de Deus. A nossa relação com as cargas é a de servos. Se nos cargos geralmente as pessoas exercem o senhorio de si mesmas, nas cargas somos servos inúteis, pois não confiamos em nós mesmos, mas na suficiência de Cristo Jesus. Ele é o Senhor! Não podemos levar as cargas na nossa força, mas na do Senhor. Na sua dinâmica é que somos nós mesmos, cheios de limitações. As cargas nos treinam, habilitam e fortalecem. Elas produzem crescimento espiritual. Pressupõem um carregador fiel e disposto a levá-las.

Cargas são para pessoas com a fé de Abraão; com a persistência de Jacó; com a humildade e a pureza de José; com a submissão e a mansidão de Moisés; com o coração amoroso de Davi; com a sabedoria de Salomão; com a sensibilidade de Jeremias; com a firmeza de Isaias; com a intrepidez e ousadia de João Batista e com autoridade inquestionável do Senhor Jesus Cristo. Cargas que fortalecem o crente. Que ajudam o crente a crescer na graça e conhecimento de Cristo. Recebidas por homens e mulheres que um dia morreram para si mesmos e para o mundo, e passaram a viver para Cristo, o Senhor, Aquele que levou o peso terrível por todos nós na cruz do Calvário. Aquele que viveu e ensinou a coerência da cruz, a coerência do amor. O Senhor nos chama a levarmos as cargas na Sua dependência. Sabemos que é melhor serem dois do que um. Dois levam melhor as cargas do que um. Há uma intensa solidariedade neste processo. Que os nossos cargos sejam cargas que tragam muitas experiências preciosas para a nossa vida cristã. Deve haver em nós o prazer imenso nas cargas. Que em nossa peregrinação, ao levarmos as cargas, Deus seja glorificado. Sejamos cheios de misericórdia nesta tarefa tão sublime de levar as cargas uns dos outros. Sejamos suportes uns para com os outros. Que os nossos cargos sejam cargas legítimas para abençoar as pessoas e para a glória de Deus.

Oswaldo Luiz Gomes Jacob, pastor,

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.