“AS DORES DO HOMEM DE DEUS NO EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO PASTORAL” (I)

 

“Meus filhos queridos, sofro dores de parto por todos vocês novamente – e este processo continuará até que o Messias seja moldado em vocês” Gl 4.19 – (Bíblia Judaica Completa – David Stern)

As dores revelam uma anomalia, pois num membro do corpo é um sinal de que as coisas não vão bem. Mas elas são inevitáveis, pois fazem parte da nossa natureza, da natureza de Adão. As dores de parto são diferentes em intensidade. Segundo relatos de mulheres que as sentiram, elas vão aumentando até nascer a criança. Algumas pedem anestesia, pois as dores são muito intensas. Vamos considerar a realidade da dor, suas causas e os seus efeitos e como aproveitá-las na caminhada ministerial.

Dor do latim “dolor” – ‘Sofrimento físico ou moral; aflição, mágoa; sensação penosa desagradável, causada por contusão, lesão ou estado anômalo do organismo ou parte dele’. Uma dor é sentida toda vez que o sistema nervoso é informado que um estímulo nociceptivo (picada, queimadura, esmagamento, distensão de uma víscera, interrupção da irrigação sanguínea como no infarto do miocárdio, modificação da composição química do meio interno) toca um segmento corporal inervado normalmente. As perturbações são detectadas por nociceptores, depois veiculadas para a medula espinhal por fibras de condução rápida, responsáveis por dores bem localizadas, mas breves, e por fibras desmielinizadas, responsáveis por dores prolongadas menos localizadas” (Grande Enciclopédia Larrousse, pg. 1968).

O Dr. Paul Brand, cirurgião cristão especializado em mãos de pessoas acometidas de hanseníase (lepra), diz: “Para o bem e para o mal, a espécie humana tem entre os seus privilégios a preeminência da dor. Temos a capacidade única de sair de nós mesmos e auto-refletir, lendo um livro sobre a dor, por exemplo, ou recapitulando a lembrança de um episodio terrível. Algumas dores – a dor do luto ou de um trauma emocional – não envolvem nenhum tipo de estimulo físico. São estados de espírito, forjados pela alquimia do cérebro. Essas proezas conscientes permitem que o sofrimento perdure na mente por um tempo maior, mesmo que a necessidade que o corpo tem desse sofrimento já tenha passado. Todavia, eles também nos oferecem o potencial para atingir uma perspectiva que irá mudar o próprio panorama da experiência da dor. Podemos lidar com ela e até triunfar” (A Dádiva da Dor, pg. 28).

As dores podem nos insensibilizar, provocar dependência humana, murmuração, amargura, ressentimento, autocomiseração, doenças psicossomáticas ou crescimento em todos os níveis, gratidão, louvor, dependência e conformação com a vontade de Deus. As dores devem ser respondidas com fé e confiança no Senhor. Fazem parte do Seu tratamento em nós. Elas jamais devem nos imobilizar, mas contribuir para que sejamos movidos na direção dos que sofrem. Elas nos sensibilizam em relação ao nosso interior e na comunhão com o outro. As dores devem provocar em nós atitudes e ações de profundo amor pelas pessoas. Devem produzir empatia e simpatia.

A expressão ‘dores de parto’ vem do original ‘odino’, sinto dores de parto estou para dar à luz, figuradamente de Paulo em angustia de espirito para trazer os crentes à conformidade com a mente de Cristo. Termo empregado em Apocalipse 12.2: “Ela estava gravida e gritava com as dores de parto, sofrendo intensamente para dar à luz”. Trata-se de uma expressão metafórica frequentemente usada nas paginas do Antigo Testamento: Sl 7.14; Mq 4.10; Is 26.18; Is 66.8.

Expressa grande angústia e esforço como também, segundo Paulo mostra aqui aquele esforço imenso, aquela angustia de alma por que ele passava, na expectativa de que os crentes gálatas serem definitivamente conduzidos aos pés de Cristo, a fim de que experimentassem o novo nascimento. A metáfora da geração de filhos, mediante o evangelho, também se encontra nas passagens como 1 Coríntios 4.15: “Porque ainda que tenhais dez mil instrutores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais. Pois pelo evangelho eu mesmo vos gerei em Cristo Jesus”.

“Tal como um embrião disforme pouco a pouco vai assumindo a forma de um homem, assim também com o crente imaturo, pouco a pouco, vai assumindo a semelhança de Cristo” (Champlin). Este processo é doloroso. Ele – Paulo – não se satisfaz em que Cristo habite neles, ele anseia ver Cristo formado neles, vê-los transformados à imagem de Cristo “até que Cristo lhes ocupe totalmente o ser”. Na verdade, em ardente desejo e oração, ele agoniza por eles até o fim, comparando o seu sofrimento às dores de parto. Ele estivera em trabalho de parto por eles já anteriormente, quando da conversão dos gálatas, quando eles nasceram de novo; agora o afastamento deles provocava outro parto. Mais uma vez, ele estava em trabalho de parto. Na primeira vez houvera um aborto; desta vez ele anseia que Cristo seja verdadeiramente formado neles (Stott).

O uso médico deste verbo (sentir) é para “a formação de um embrião”. A figura é um tanto confusa, como acertadamente o Dr. Alan Cole, diz que Paulo ‘não está nos dando uma lição de embriologia: Antes, está expressando o seu profundo e sacrificial amor pelos gálatas, seu anseio por eles (v.20), sua difícil situação. Ele deseja poder visita-los e mudar a sua atitude ‘da severidade para a doçura’. A diferença entre Paulo e os falsos mestres deveria agora estar bem clara. Estes estavam querendo eles mesmos dominar os gálatas. Paulo deseja que Cristo fosse formado neles. Eles eram egoístas quanto ao seu próprio prestigio e posição; Paulo estava preparado para se sacrificar por eles, para sofrer até que Cristo fosse formado neles. Eles queriam fama, mas Paulo, notoriedade. Isto faz lembrar de Millôr Fernandes quando declarou: Não quero ser famoso, mas notório . Ele desejava deixar um legado.

Calvino escreveu: “Se os ministros quiserem agir de maneira acertada, que trabalhem a fim de formar Cristo, não eles próprios, nos seus corações”. O ministro cristão deveria parecer-se com Paulo, e não com os judaizantes. Deveria preocupar-se com o progresso espiritual do seu povo e não dar importância ao seu próprio prestígio ou imagem. Ele não deveria explorar sua congregação para vantagem própria, e, sim, procurar servi-la. Não deveria usá-la para o seu próprio prazer, mas sim estar pronto a sofrer por causa dela. Ansioso para que Cristo seja formado em sua congregação, deveria estar pronto a agonizar, a sofrer as dores do parto. Como John Brown comenta: ‘Quando tais pastores abundam, a Igreja deve florescer’. (Stott).

Observe as referencias a Cristo nos versículos 14 e 19. Versículo 14: …antes me recebestes … como o próprio Cristo Jesus. Versículo 19: … de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós. O que deveria importar ao povo não é a aparência do pastor, mas se Cristo está falando através deste. E o que deveria importar ao pastor não é a boa vontade das pessoas, mas se Cristo está sendo formado nelas. A Igreja precisa de gente que, ouvindo o pastor, ouça a mensagem de Cristo. Apenas quando o pastor e a congregação mantiverem assim os olhos em Cristo, só então o seu relacionamento mútuo vai se manter sadio, proveitoso e agradável ao Deus Todo-Poderoso” (Stott). Quando Spurgeon, mesmo sentido dores atrozes oriundas de enfermidade reumática, pregava, as pessoas diziam: “Mas que Cristo maravilhoso!”

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