OS TRÊS PRÓDIGOS

As narrativas feitas por Jesus no capítulo 15 de Lucas revelam de modo muito claro a realidade do amor de Deus e o coração perverso, mau do homem. O filho mais moço, a ovelha e a moeda estavam perdidos e foram encontrados. O pai atraiu o filho com seu imenso amor. A ovelha foi resgatada pelo pastor. E a moeda foi encontrada por sua dona. As parábolas revelam um Deus que toma a iniciativa. O foco de Jesus é a realidade do amor de Deus. Por causa da Sua natureza, Deus sempre toma a iniciativa e coloca em nosso coração um desejo forte de arrependimento e de fé na obra perfeita do Seu maravilhoso Filho Jesus. Na parábola contada por Jesus em Lucas 15.11-32, temos o ensino acerca de três pródigos. O Pai – um Deus de profundo amor que busca o perdido por meio de Jesus Cristo (Lc 19.10); o filho mais novo que é pródigo em ‘curtir a vida’ em farras, orgias, prostituição, bagunça, violência; e o filho mais velho, que é pródigo, esbanjador em legalismo, incompreensão, preconceito, egoísmo e insensibilidade. Não entende de recepção, de festa, mas de ambiente fúnebre. Ele é implacável para com o seu irmão. Ele simplesmente não o aceita. Por isso, não o recebe de volta. Na verdade, ele o havia rejeitado no seu coração.

Vamos começar pela prodigalidade do pai. Quem é o pai? Ele ilustra bem o Pai de João 3.16; Romanos 5.8; e Isaias 49.15. O Pai que faz tudo bem. Provavelmente se o filho ficasse em casa, nunca teria sido levado a reconciliar-se com ele. É a representação vívida de Deus entregar o homem para andar nos seus próprios desejos, imundícias, paixões (Rm 1.24,26,28). A coisa mais terrível que pode acontecer ao homem é deixar o Senhor para confiar em si mesmo. E o Pai o faz somente porque anseia que Seu querido Filho caia em si e volte à casa paterna, não apenas em corpo mais em espírito (Boyer). Vale a pena considerar o amor do Pai. É um amor terapêutico, que nos leva à reflexão; perdoa; restaura; disciplina; educa e traz segurança. É o Pai que busca o filho insistentemente. As Suas motivações são a Sua glória e o Seu amor. Por esta razão, ele perdoa, aceita, e justifica. Como nos ensina Boyer: “Sem duvida, o pai olhava todos os dias para aquela estrada esperando que seu filho querido voltasse. Grande é o anelo do Pai eterno que espera a volta do pródigo à casa paterna”. Jesus afirmou: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14.2).

Um segundo exemplo é o do filho mais moço, chamado também de pródigo. Quem é ele? É o pecador perdido, infeliz, com o coração perverso, mau (Jr 17.7-10; Rm 3.23; 6.23). Ele é ingrato, pois se apropria de sua herança ( como filho mais novo ele tinha o direito a 1/3) antes do tempo. Esbanja os recursos do pai. Irresponsável, farrista, e hedonista. Ele confia em si mesmo. Acha que por si mesmo resolverá todos os seus problemas. Mas ele não tinha razão porque o pai não era severo demais, nem negava ao filho coisa alguma que fosse justa. Aqui é o retrato fiel da pessoa que quer seguir a sua própria vontade, fazer o que bem entende, não reconhece limites, ele é seu próprio deus, sentimento que é a raiz de todo o pecado. Aliás, este foi o projeto satânico no Jardim do Éden: levar o homem a ser independente de Deus, a ser autônomo (Gn 3.5). Diz o texto que ele foi a uma terra longínqua, longe de Deus onde o povo não fala de Deus. “Este estado revela a condição miserável do coração do pródigo que não quer os cultos e nem a convivência onde se fala do Pai celestial” (Boyer). Naquela terra distante ele dissipou os seus bens. Esta é a realidade de “todos os verdadeiramente pródigos que estão gastando seu tempo, talentos, bens, força, saúde e corpos só nas coisas terrestres e carnais” (Boyer). Sabemos que as coisas que podem ser vistas são passageiras. A nossa tendência é nos apegarmos a elas. Elas são “por um pouco de tempo” (Hb 11.25). Mas houve uma grande fome (v.14). Aqui não é só a fome por falta de pão. É a fome que se caracteriza pela ausência do Pai. Ele está longe daquele que tem em si mesmo todo o alimento que verdadeiramente supre. Ele é a fonte de toda a boa dadiva e todo o dom perfeito. Mas longe do pai, ele se aproxima de pessoas que não o tratarão com amor. Só na casa do pai ele tem o melhor. Ele é mandado a apascentar porcos, o que era uma infâmia para o judeu. O porco era considerado um animal imundo (Lv 11.7). Ele desejava se alimentar da planta que os porcos comiam (v.16). Mesmo assim ninguém lhe dava nada. Enquanto tinha dinheiro e saúde, não lhe faltaram companheiros, mas ao cair em necessidade, todos o abandonaram. Agora ele chega ao fundo do poço e começa a olhar para cima esperando o socorro. Ele pensa no pai (v.18). Ele finalmente chega ao nível do arrependimento. Aqui inicia o processo de restauração, de cura. Reconhece que pecou contra o céu e contra o pai. No verso 20, diz que ele levantando-se foi para seu pai. A sua determinação é fruto do conhecimento que ele tinha do pai. Ele sabia do caráter do pai. Que este o receberia. Deixou para trás uma vida de infelicidade e se voltou para aquele que podia fazê-lo verdadeiramente feliz. Ele estava consciente de que o coração do pai era amoroso e perdoador. Leon Morris diz: “E assim voltou. É relevante que Jesus não diz para sua aldeia ou até mesmo para seu lar, mas sim, para seu pai. Fica claro que o velho tinha esperança em tal volta, e que ficava vigiando. Jesus enfatiza as boas-vindas que o Pai deu para seu filho indigno. Vi-o enquanto estava ainda longe, compadeceu-se dele, e, correndo (coisa notável num oriental de idade) o abraçou (lançou-se-lhe ao pescoço) e o beijou. Este último verbo pode significar ‘beijou-o muitas vezes’ ou ‘beijou-o ternamente’. O verbo indica uma saudação e não a cortesia forçada”. Então, este filho estava morto e reviveu (v.24). Por que estava morto? Porque estava longe do pai.

Agora temos o terceiro pródigo, o filho mais velho. Todos os bens que restaram eram dele (2/3). Ele esbanjava legalismo, religião escravizadora. Era um religioso perdido. Dentro de uma casa, mas muito distante no coração e da comunhão. Ele cumpria todos os deveres como um bom adorador. Oferecia sacrifícios. Andava no templo e na sinagoga, mas era implacável quando se tratava de julgar os outros. Ele achava que era o centro das atenções do pai. Para ele, o seu irmão era “esse teu filho”. O seu irmão era um zero à esquerda. A volta dele trouxe indignação para as suas entranhas. Ele o havia rejeitado. O filho mais velho era sem amor, incrédulo, religioso, insensível, egoísta, ingrato, amargurado e murmurador. Ele seguia uma religião, mas não o evangelho. Um sistema, mas não o Senhor. O judeu era assim: se achava o único merecedor do amor e da salvação de Deus. O profeta Jonas é um exemplo clássico. Todo judeu ‘agradecia’ a Deus por não ser mulher e nem gentio. Era um povo preconceituoso e que não suportava outros povos. Jesus conta a parábola do samaritano para ensinar que o amor supera as barreiras étnicas e sociais. O amor não age com base na pele, no nível social, econômico, mas com o mesmo sentimento de Cristo. Possuímos um pouco do filho mais velho. Por isso, devemos ser imitadores de Deus, o nosso Pai Pródigo, como filhos amados e andarmos em amor (Ef 5.1,2). O nosso exemplo não está no filho mais moço e nem no filho mais velho, mas no pai. Por esta razão, o nosso verdadeiro irmão mais velho é Jesus, que morrendo e ressuscitando por nós, garantiu a nossa festa no céu (Tim Keller). Ele é o exemplo máximo de amor, perdão, aceitação, afeto, graça, justiça, misericórdia e alegria na comunhão. É no Pai que encontramos a razão de viver. Ele é o dono da festa. Somente Ele não nos decepciona. Que o Senhor nos livre da prodigalidade dos filhos mais moço e mais velho e nos conceda por Sua graça e por Seu Espírito a Sua prodigalidade. No Pai nós podemos confiar perfeitamente porque Ele é amor.

Oswaldo Luiz Gomes Jacob, pastor.

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