A SEDE DE SIGNIFICADO

No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. João 7:37.

Esta celebração era a Festa dos Tabernáculos. Era a última das três grandes festas anuais, em que todo israelita deveria comparecer. Este nome foi dado no princípio da história de Israel, quando o povo se abrigava em tendas. Era uma festa eminentemente agrícola, comemorada no sétimo mês, no fim da estação das colheitas.

O festejo durava sete dias e, em cada dia, podia-se ver um festival de alegria. Em todo aquele período, os sacerdotes carregavam água, simbolizando a torrente que jorrara da pedra que Moises ferira no deserto. O último dia era o clímax da festividade e a ocasião de um derramar abundante de águas sob as escadarias do templo.

Como diz um velho ditado: “a alegria vem das tripas”. A colheita abundante é uma previsão para os tempos de fartura. Esta é uma época de grande alegria para o povo. Numa comunidade agrícola, a mesa cheia é indício de festança.

Foi exatamente no derradeiro dia desta festa que Jesus exclamou: se alguém está com sede, venha a mim e mitigue a sua sede. Mas é, no mínimo, esquisita esta afirmação. Como alguém pode beber uma pessoa? Claro, estamos diante de uma alegoria, ao ver Jesus se comparar com a água, por causa da sede de significado que arde em nosso ser.

Todos nós temos sede de significado. Todos nós somos carentes de identidade pessoal. O pecado nos tornou criaturas sem sentido efetivo. Para que nós experimentemos algum valor, é preciso buscar nos acessórios, algo que nos dê importância.

Por exemplo: buscamos no dinheiro, nos títulos, nos diplomas, etc. algum aditivo que tente suprir a ausência de significação pessoal. Usamos as roupas de grifes, jóias e maquiagens como apêndices para nos dar certo significado diante da nossa carência real. Somos uma espécie indigente emocional e necessitada de reconhecimento.

Há uma sede intensa de sentido na vida desidratando as nossas entranhas. A busca pela nobreza humana é um dos sintomas da grande pobreza emocional. Aquele que quer se distinguir acima de todo e dos demais, sofre de um vazio interior intolerável. Foi para esta turma carente de significado que Jesus garantiu a satisfação permanente.

A pessoa sem familiaridade com Deus é uma alma sedenta de identidade eterna. A morte abrevia o anseio pela eternidade. A tumba limita o gole da fonte perene, por isso, a sede da imortalidade é qualquer coisa insuportável para a alma destituída da comunhão com o Eterno. Talvez por isso, o salmista busque o elixir da longa vida ou a bebida da vida eterna. Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Salmos 63:1.

Há um deserto emocional numa vida sem comunhão com Deus. A seda da alma deixa a pessoa ansiando por aceitação a todo custo. Não há nada mais árido do que a alma com imensa sede deste significado eterno e sem chance de dessedentá-la aqui.

Uma pessoa que aparenta satisfeita com aquilo que não a satisfaz eternamente é alguém triste, que vegeta sem sentido por uma existência estéril. A falta de valor permanente neste mundo torna o sujeito carente, sujeito ao vazio existencial insuportável.

Os poços de água em terrenos arenosos só dessedentam por pouco tempo, pois logo secam, enquanto a sede continua muito intensa. Jesus, conversando com a mulher samaritana, afirmou-lhe: Quem beber desta água tornará a ter sede; João 4:13.

A pobre mulher teria que voltar ao poço outras vezes para buscar água, a fim de abrandar a sua sede. Neste mundo oco de valor eterno, não há uma cacimba jorrante que alivie a nossa ausência de significado permanente. Temos sede constante de aceitação.

Nada que não seja eterno pode matar a sede da alma sedenta por afeto e amor. Por isso, o Senhor Jesus foi taxativo: aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. João 4:14. Só Cristo pode saciar a secura da alma sedenta de sentido.

Eu tenho sede de aceitação, mas ninguém, humanamente falando, poderá satisfazer a fúria da minha ansiedade. A sequidão do meu ser é de proporções eternas e só a eternidade preencherá o vazio existencial do meu íntimo. Eu tenho sede de Jesus Cristo.

Muitas pessoas cavam poços fundos, todavia, poços rotos, que não retém as águas. Quantos são aqueles que querem satisfazer a sede de sua alma com o poder econômico ou com os tesouros que se esvaem com o tempo? Investem muito no que rende pouco.

É verdade que o dinheiro dá condições de comprar muitas coisas boas, mas não consegue adquirir a paz que excede todo entendimento. Ele pode comerciar haveres, sem, contudo, haver condições de granjear a realidade espiritual da aceitação incondicional. Quanta gente rica de dinheiro é pobre desta verdadeira riqueza divina?

Um amigo me disse que um bilionário que conhecera, há algum tempo atrás, era um dos indivíduos mais pobres que já tinha visto, pois este sujeito só tinha dinheiro. A pobreza dos ricos vem sempre envolta na miséria de sua avareza. O seu patrimônio acrescentava apenas queixas à sua imagem. Coitado daquele que se distingue pelos bens que possui sem, jamais, poder fazer o bem aos outros que precisam de ajuda!

Outras pessoas se enfeitam com diplomas, como se fossem pavões, tentando dar coloração ao seu perfil pálido de sentido. Deste modo, os cursos servem como verniz para decorar a madeira carcomida de cupim.

Para preencher o vácuo existencial dos sujeitos esnobes, são depositados nas fendas da alma, entulhos que tentam proteger a falência concreta, mascarando o seu aspecto desmantelado. Mas este é um esforço inútil, pois a morte acaba levando para a sepultura todo cabedal acumulado ao longo dos anos. É triste ver a erudição enterrada. É lamentável assistir uma cultura invejável sendo sepultada e comida de bicho, no pó da terra.

Para o falido e sedento de significado Jesus continua oferecendo os sorvos das suas correntezas. Disse-me ainda: Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida. Apocalipse 21:6.

Houve um momento no drama do Calvário que a Fonte que mata a sede teve sede na cruz. Esta foi uma sede que tinha como objetivo dessedentar o vazio de Deus estampado no coração da humanidade insociável e insaciável.

Além do mais, quando o Senhor deu o penúltimo brado na cruz, ele afirmou categoricamente: Tudo está consumado. A sede estava satisfeita para o ser terreno. Não havia mais nada a ser feito em benefício da reconciliação da raça adâmica com Deus.

Agora, no final da história, ele continua afirmando com a mesma categoria: tudo está feito, e acrescenta: eu sou aquele que, do principio ao fim, satisfaço a sede de significado de quem tem sede. Por isso, venha a mim e dessedente a sua sede.

A alma sedenta só encontra satisfação na eterna Fonte da graça. Nada que não seja rigorosamente gracioso poderá satisfazer o anseio legítimo da sede de significado. Por isso, tudo que tiver um preço a pagar vai romper com o propósito eterno da graça.

Aquilo que me custa algo, acaba me dando o mérito na liquidação. Se eu tiver que amortizar um pouco, por menor que seja, terei merecimento no processo da cobertura da conta, ainda que a minha participação seja insignificante. Neste caso, estarei negando a plenitude da graça. Paulo entendeu este assunto muito bem ao dizer: E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. Romanos 11:6.

Cristo é o tudo para o nosso nada. Cristo é a plenitude para o nosso vazio. Cristo é a suficiência da nossa deficiência. Cristo é o suprimento do nosso déficit, portanto, não há prestação do cliente no processo da santificação. Se tudo é pela graça, então as nossas ações são também financiadas pela plenitude desta mesma graça.

Quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. Há uma Fonte jorrando do interior daquele que crê, gerando ações e reações supridas pela suficiência da graça. Ora, se Cristo vive em mim, já não sou eu quem vive, logo, a vida que vivo na carne, vivo pela graça de Cristo que opera tanto o querer como o efetuar.

Não há preço a pagar diante do preço pago pelo Senhor Jesus Cristo. As minhas renúncias são tão somente bagatelas em presença de tão grande dádiva. Se eu abandonar o meu fusca velho e acabado, por causa de uma Ferrari de última geração, que me foi dada, eu não abdiquei de nada tão valioso assim. Essa é uma renúncia imperceptível.

Renunciar os programas de TV por causa dAquele que tudo provê em amor, não é uma tarifa pesada e nem um custo elevado demais para quem foi aceito pela graça.

Não considero nenhum prejuízo quando tenho que renunciar aquilo que é vil por aquilo que é valioso. Desistir deste mundo perecível por causa de um Reino eterno, não é um preço elevado a pagar. O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. Mateus 13:44.

Ora, se Cristo é o único que satisfaz a sede de significado, o que significa renunciar tudo que não satisfaz, por causa dEle? Não creio que temos que pagar preço algum, abandonando tudo aquilo que não nos basta, por causa dAquele que nos é bastante.

Ouvi um pregoeiro valorizando o desapego do beneficiado, como se fosse uma cotação elevadíssima que devesse pagar. Ele dizia que todo esforço que fizéssemos, toda renúncia que tomássemos e toda disciplina assumida bancavam o custo da nossa santificação. Sua prédica sustentava que a salvação era pela graça, mas a santificação tinha uma despesa alta a ser paga por cada um dos executivos intitulados de santos.

Perdoem-me, mas não vejo qualquer preço a pagar para aquele que recebeu tudo graciosamente em Cristo. Nem mesmo a santificação que é um processo sinergista, isto é, que Deus age e eu reajo, pode ser considerado como dívida a ser paga. A cotação no Reino de Deus é sem moeda e sem custo. Não há etiqueta no rótulo, mas graça sobre graça.

Ora, se Cristo satisfez a minha sede eterna de significado, nada que eu faça de desprendimento, neste mundo suado, representa algum custo da minha parte, diante do benefício de que fui alvo. Nem ainda a gratidão é uma contrapartida do salvo, em face de sua salvação. Tudo no reino de Deus é rigorosamente pela graça, uma vez que, até mesmo as boas obras foram preparadas por Deus para que andássemos nelas.

A graça em Cristo não só faz tudo por nós, como financia tudo o que fazemos em consequência desta tão grande salvação. Para Paulo, essa questão fica totalmente clara quando ele diz: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo. 1 Coríntios 15:10.

Se for pela graça do Pai que Cristo vem satisfizer a minha sede de significado, será também pela mesma graça, que ele me suprirá a existência com a sua vida, vivendo em mim. Além disto, ele me capacitará a conseguir tanto o querer como o realizar a sua vontade efetivada, de boa vontade, sem o menor custo ou prestação a pagar, da minha parte.

O Cristo que satisfaz a sede de significado, também habilita o saciado a ser despenseiro da graça, sem despesas, desgastes, demandas e as deduções de quem é um dedo duro. O negar-se a si mesmo não é uma contrapartida a contra gosto, mas um despojamento voluntário e jubiloso, em razão do pleno contentamento concedido pelos goles eternos na plenitude de Cristo Jesus, como o nosso tudo.

A desambição dos santos diante deste mundo interesseiro, alimentada pela santificação progressiva da vida de Cristo, não é uma tarifa elevada, nem um preço pesado a pagar. Nenhum filho de Abba se sente desgostoso por descartar aquilo que ele não pode reter, em benefício daquilo que ele não pode perder.

Louvada seja a Fonte que satisfaz o insatisfeito, a fim de que o satisfeito pela graça sempre se satisfaça em fazer com satisfação a vontade de quem o satisfez. Aleluia.

Por: Glenio Fonseca Paranaguá (Site da Primeira Igreja Batista de Londrina)
03/10/2010

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