PRECISAMOS DE UMA REFORMA RELACIONAL

Carecemos de uma reforma relacional que, com certeza, envolverá Deus, o homem e o seu próximo. Relacionamento, nós sabemos, é um grande desafio seja na família, na igreja e em outras áreas da vida humana. A falta de um relacionamento maduro é a causa de fragmentações na família, na igreja e na sociedade. Vivemos um tempo de distrações, entretenimento doentio e egoísmo, mesmo nas igrejas. A sociedade secularizada está comprometida com a filosofia ‘cada um por si’ ou ‘cada um com os seus problemas’. Ela está doente e, por isso, alienada. Vivemos um tempo de frieza. As pessoas não estão mais preocupadas com o sofrimento alheio. Cada um olhando para o seu umbigo, cuidando das áreas de seu interesse. As pessoas – inclusive em nosso contexto cristão – estão dispersas na mente e no coração. A formalidade tem sido um estilo de vida desta sociedade pós-moderna. Não há espaço no coração para comprometimentos com o outro, para a ajuda mútua, para bate-papos, para compartilhamentos e formação de grupos de terapia ou ‘companheiros de jugo’. Apesar das pessoas trabalharem muito, isto não deve ser obstáculo para o relacionamento entre elas.

A reforma relacional passa, em primeiro lugar, por uma experiência profunda com o Senhor – Criador do relacionamento amoroso. Paulo nos ensina que devemos ser ‘imitadores de Deus como filhos amados e andarmos em amor como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós em oferta e sacrifício a Deus como cheiro suave’ (Ef 5.1,2). Deus é o nosso modelo de iniciativa e profundidade relacionais. A iniciativa foi dEle. Ele decidiu nos amar antes da fundação do mundo e o fez em Seu Filho Jesus Cristo, estabelecendo o projeto de reconciliação magistralmente interpretado por Paulo (2 Co 5.18-20). A Sua ação reconciliadora (porque nós havíamos pecado em Adão, Gn 3), foi fundamentada no Seu amor. Não é possível relacionamento maduro sem amor. Deus é amor. A Sua natureza é amar (1 João 4.8). No relacionamento significativo, que vale a pena, Deus é essencial. Ele sempre tomou a iniciativa de relacionar-se com o homem, Sua criatura. O homem, contudo, tem manifestado insegurança. Brennan Manning diz que a “insegurança não somente paralisa nossa relação com o Deus vivo, mas também provoca um efeito devastador nas relações interpessoais” (Manning, 2007, 65). A partir do Senhor, podemos olhar para nós mesmos. Ter a consciência de que temos muitos problemas dentro de nós que nos impedem de relacionarmos com o próximo de forma sincera e criativa. Buscamos sempre justificativas para não nos relacionarmos com o outro. Precisamos da sondagem de Deus (Salmos 139.23,24). Como carecemos pedir perdão pelas nossas mazelas, pelo nosso egoísmo, pela nossa acomodação, pela nossa arrogância, pela nossa letargia e pela nossa incapacidade de auto-cura, pedindo a Deus que nos mostre onde temos falhado no nosso relacionamento com Ele e com o próximo. A reforma relacional ocorre numa experiência com o Senhor e comigo mesmo. Tendo estes dois relacionamentos resolvidos, estamos em condições de estabelecer um relacionamento muito rico com o outro. Neste relacionamento há amor, perdão, paz, misericórdia, paciência e sinceridade. John Stott, interpretando o fruto do Espírito (G 5.22,23), destaca as virtudes pessoais que trabalham dentro de nós: ‘fidelidade, mansidão e domínio próprio’ e as virtudes sociais que operam no relacionamento com o próximo: ‘longanimidade, benignidade e bondade’. Vivendo estas virtudes, ocorre uma profunda reforma relacional. Mais uma vez a insegurança ‘é o ponto de partida de toda a desavença social. Ela acaba com a sinceridade, que é a ponte para o mundo existencial do outro. Ela corrói a verdadeira comunicação e causa um tipo de ruptura no desenvolvimento da personalidade autentica’ (Manning, 2007, 65).

Devemos viver como reformados relacionais, mas em constante reforma, buscando sempre a excelência no relacionamento. Deus se agrada, tem muito prazer quando vivemos em comunidade comprometida com o Seu amor (Salmos 133). Relacionar-se em amor é viver o evangelho da graça. Perdoar os que nos ofendem significa viver o evangelho do Senhor Jesus. Viver em harmonia, em sintonia é relacionar-se de forma sinérgica. Há energia renovada e criatividade nos relacionamentos pautados no Senhor, bem como a disposição em servir. Unidade no serviço aos que necessitam. Jesus ensinou esta verdade em João 13, quando lavou os pés dos Seus discípulos, dando o exemplo. Deus está presente no coração receptivo e serviçal. Ele se agrada quando vê mãos que servem (sem esperar recompensa) para o bem da comunidade. Esta é construída a partir de relacionamentos saudáveis. Jesus sempre primava pelo relacionamento saudável entre os Seus discípulos e a comunidade onde serviam. As igrejas do Novo Testamento foram marcadas por relacionamentos maduros a partir de reformas profundas oriundas de um exame pessoal fundamentado na intimidade com Deus. Que assim seja conosco!

OSWALDO LUIZ GOMES JACOB

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